Atriz da Freguesia, Luana atravessa memórias de família, imagens dos sonhos e o desejo de se reconhecer. Arte, afeto e autoestima se encontram nessa conversa.
Os textos de apoio acompanham a escuta; passagens musicais e de ambientação são indicadas entre colchetes.
COMECE PELA ABERTURA
O vestido azul-turquesa
2:44
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[Música e ambientação.] Com o que você sonha? Seja dormindo, seja acordado, a gente sempre sonha muita coisa. Então a pergunta certa talvez seja outra: você se lembra dos seus sonhos? Em 2023, um grupo de jovens artistas da periferia gravou um diário de sonhos. A iniciativa foi apenas uma das várias metodologias do Laboratório Criativo Pode Sonhar, projeto da Avenida Brasil, Instituto de Criatividade Social e Agência de Redes para a Juventude. E seu objetivo é explorar, afinal, o que a cidade permite que esses jovens sonhem. E como a cidade escuta esses sonhos? Vamos escutar. Dia 12 de outubro, quinta-feira, Dia das Crianças. Sonhei com a minha avó Matilde. A casa da minha avó era tomada por várias caixas, e ela estava vendendo. Ela estava vendendo todos os vinis dela, as roupas, muitas roupas. Então era como se fosse um bazar, um bazar de igreja. Por um momento, ela me chama e me traz um vestido azul, azul-turquesa. Um vestido muito bonito e que ela não entende por que ele está no saco, na caixa para ser doado, se ele é tão bonito e veste tão bem em mim. Em algum momento eu visto e vejo o quão bonito é o vestido mesmo. Ele tem uns babados, né? Tem mangas bufantes e tem brilho, ele é brilhoso. E aí eu visto esse vestido. E eu me lembro que toca a música do Itamar Assumpção, “Tua Boca”, durante o meu sonho. E eu danço com aquele vestido ao som dessa música. [Trecho musical.]
TRECHO 02
Uma infância criativa e o apoio da família
1:00
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Eu fui uma criança muito criativa, fui uma criança muito curiosa. Sempre gostei muito de estudar, uma criança que sempre gostou muito de participar de shows de talentos, de sempre aparecer. Sempre foi assim. Eu lembro da primeira vez que me apresentei na escola, que meu pai ensaiou no quintal de casa, no quintal que a gente mora. Aí eu cantei uma música do Legião Urbana. Meu pai era viciado em Legião Urbana. [Luana relembra a música.] Eu cantei no show de talentos da escola. Eu sempre gostei bastante. Mas é minha família, então, tipo, é minha base. Tudo que eu idealizo, tudo que eu penso, qualquer coisa, eles acreditam muito em mim, no meu potencial. E que tudo que eu consegui até hoje, que eu quero conquistar, que eu ainda nem sei que eu vou conquistar, eu sei que vou ter apoio da minha família.
TRECHO 03
O vestido e a autoestima
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Então, eu compartilhei durante o processo sobre esse sonho, que eu entendi esse vestido azul como uma forma de eu construir autoestima, de me sentir bonita, de me sentir sensual. Acho que tem toda uma relação assim com autoestima. Porque na hora em que eu boto o vestido já entra a música, já estou me sentindo bonita. Tudo isso foi entrando para esse cenário de autoamor, de sensualidade, que tudo estava muito relacionado a esse vestido, dessa questão da caixa, de que às vezes a gente tem o suficiente também para se sentir bem. Que a gente não precisa jogar fora, a gente já tem o suficiente. Que a gente pode reaproveitar isso e viver bem, se sentir bonita, se sentir uma pessoa importante.
TRECHO 04
O pai, o sonho e a viagem a Moçambique
1:07
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Em dezembro do ano passado, em 2023, eu fiz a inscrição no intercâmbio, né? Para Maputo, para Moçambique. Eu lembro que eu tinha conversado com meu pai sobre isso, sobre simplesmente sair do Brasil e, outra, atravessar o oceano e ir para outro continente. E aí eu lembro que meu pai super apoiou e falou que eu ia conseguir tudo que eu quisesse. [Pausa.] Aí eu perdi meu pai no final de janeiro. Foi dezembro que eu fiz a inscrição e perdi meu pai no final de janeiro. E aí, um dia antes de sair o resultado que eu tinha passado, eu sonhei com meu pai. E ele estava justamente no quintal da minha casa com minha mãe comemorando alguma coisa. E no final do sonho tinha a minha colocação na lista, em verde. Eu lembro exatamente, estava no meio. Quando eu acordei, simplesmente estava no lugar que estava no sonho.
TRECHO 05
As muitas formas de ser Barbie
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Então, eu queria ser aquela boneca. E que eu queria ser a Barbie. Porque a Barbie é justamente uma representação de diferentes formas de ser. Ela pode ser a Barbie médica, ela pode ser a Barbie dançarina, bailarina. E que eu me inspirava muito nela. Porque quando eu era criança eu queria ser dançarina, aí depois eu queria ser cantora e depois eu queria ser professora. E eram muitas formas, né? E que hoje eu consigo me enxergar um pouco na Barbie pela minha independência, assim, de possibilidades.
TRECHO 06
Se reconhecer e inspirar outras mulheres
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E que depois de um tempo, quando eu comecei a me aceitar, comecei a aceitar meu cabelo, comecei a ver beleza em outras meninas parecidas comigo. Pequenininho, pequenininho, né? A gente vai formando uma legião, assim, a gente vai inspirando outras mulheres. Hoje mesmo eu estava saindo da casa do meu namorado, a gente estava vindo pegar o trem. A gente estava passando na rua e tinha uma menina que parecia estar com o cabelo em transição. Ela passou, olhou para minha cara e falou: “Nossa, que lindo! Que lindo esse cabelo!”. E eu não escutei, quem escutou foi meu namorado. Depois me contou, e eu falei: é isso. A forma como ela se relacionou com meu cabelo talvez inspire ela, né? Não mais na Barbie. Não mais na Barbie branca, loira, cabelo alisado, cabelo arrumadinho.