Os textos de apoio acompanham a escuta; passagens musicais e de ambientação são indicadas entre colchetes.
COMECE PELA ABERTURA
Um encontro com Duda Beat
1:56
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[Vinheta, música e ambientação de chuva.] Essa noite eu sonhei com a Duda Beat. É engraçado porque ultimamente eu tenho pensado nela de forma recorrente. E não sei, era como se eu já conhecesse. Eu estava lá em Inoã num dia que estava chovendo muito. E aí a Duda Beat apareceu do nada. Parecia que ela estava no hotel, mas o hotel era a casa lá em Inoã. E aí ela chegou, chamou e queria beber, sair para beber. E aí eu falei: “Não, não, não”, mas por fim a gente foi. No momento que a gente foi, aí a chuva já não fazia mais parte do sonho. E aí fomos no bar, no primeiro, e ela queria ir em todos os bares. Mas a gente estava fumando. E eu não fumo. Tem isso ainda, e eu não fumo. E a gente foi expulso por conta do cigarro. E a sensação de ser expulso de um lugar poderia ser uma coisa muito ruim se eu não tivesse consciência de outros fatos, sabe? No sonho talvez tenha sido de propósito, talvez tenha sido irreverente. Esqueço a palavra: irreverência. Algumas pessoas têm o direito de afrontar o sistema também. Algumas pessoas são construídas para afrontar o sistema. Eu acho que a artista está nesse lugar. O artista está nesse lugar. [Música.]
TRECHO 02
Encontrar os nossos no território
1:03
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Em Realengo a gente tem muitas favelas, né? E muita criança na rua se divertindo, fazendo todas essas coisas, mas a gente tem pouca oportunidade. A gente tem trem, a gente tem Avenida Brasil, que corta o nosso bairro, mas a gente ainda precisa caminhar para muito longe para que as coisas sejam possíveis, ou para fazer arte ou para fazer qualquer outra coisa da qual o nosso vizinho, o nosso pessoal tem orgulho. Mas eu acho que é isso. Acho que a gente precisa olhar para esse território. [Passagem musical.] A gente sai muito, né? Eu encontro muitas pessoas que são do meu entorno, de Realengo, de Bangu, de Santa Cruz, de Campo Grande, no centro da cidade. E aí, como é que a gente faz para a gente se encontrar lá, sabe? Como é que a gente pode pensar formas e estratégias para fazer esse arrastão, arrastar os nossos de volta, sabe?
TRECHO 03
A escrita no trem vira poesia
1:00
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Ele escreveu todo dentro do trem, indo trabalhar. Ia de Santa Cruz ao centro da cidade, o maior trajeto de trem do Rio de Janeiro. E ele escreveu todo o livro dele dentro do bloco de notas, dentro do trem, do bloco de notas do telefone dele. Quando eu li isso, eu achei isso absurdo. Achei incrível demais. E aí eu trabalhava, morava em Realengo e trabalhava no centro da cidade. Em algum momento eu puxei o telefone também para escrever no meu bloco de notas. E isso virou um hábito. E aí surgiram vários textos relacionando o subúrbio, esse trajeto e a vivência enquanto um homem gay. [Dramatização de poema.] Você tem um compromisso de ser a perfeição, e isso nada te custa. Você não precisa nem mesmo levantar da cadeira para ser perfeito. Você é capaz de fazer isso até dormindo, ou bravo, ou constrangido. Minha mãe me perguntou uma vez se seus olhos são ilusões. E eu acho que você é muito para mim. Mas isso diz mais sobre mim.
TRECHO 04
Literatura, amor e a saída do armário
1:01
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Eu acho que meus sonhos são, boa parte, relacionados, estão em ligação com o meu fazer artístico, com a literatura. Sonhos oníricos e sonhos assim, de desejo de futuro. Eu acho que os desejos de futuro têm a ver com amor. Então, o amor para mim é algo gay, né? É algo LGBT sempre. E eu abordo o amor através disso. É impossível desassociar uma coisa da outra. E nem sempre é bonito, né? A saída do armário eu acho que é um fato histórico recente. Pensando em fato histórico, a gente pode sair do armário ontem. Quando eu penso em literatura, em poesia, eu não consigo não pensar nisso, na escassez de literatura que foi produzida antes também por conta disso. Muitos autores a gente hoje não consegue encontrar facilmente e eu acredito que seja por conta da homofobia que o amor dessas pessoas sofria.
TRECHO 05
O artista e o direito de afrontar
0:52
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Eu comecei a pensar nessa relação de pecado, da qual eu consegui até falar um pouco aqui já, sobre o pecado associado à promiscuidade, mas à promiscuidade para um controle de um corpo dissidente. Sendo que eu acho que o gozo existe. Eu acho que as pessoas viveram durante um tempo fingindo que o gozo não existia, que o sexo não é bom ou que o sexo não é algo coletivo também. Agora eu acho que a gente também pode colocar em xeque o que é a nossa percepção sobre o pecado, e não tem nada relacionado a sexo. Eu acho que pecado é uma violência contra quem não consegue falar, na verdade. Eu acho que pecado é falta de oportunidade. Algumas pessoas têm o direito de afrontar o sistema também. Algumas pessoas são construídas para afrontar o sistema. Eu acho que a artista está nesse lugar. O artista está nesse lugar.
TRECHO 06
O amor foi o primeiro sonho
1:52
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Pô, eu acho que o amor foi o primeiro sonho, sabe? E aí agora eu acho que o que eu buscava no amor... acho que algumas coisas não precisam de explicação. E o Kaio entende essas coisas que não precisam de explicação para mim. A gente tem uma comunicação ótima, a gente briga pouquíssimo. Eu gosto muito de política e eu tinha muita vontade de conhecer Brasília. E o Kaio é de Brasília, sabe? E aí no primeiro momento que a gente se conheceu ele me falou o nome dele: Kaio. Eu desacreditei. Aí dei meu telefone para ele colocar o Instagram dele. Aí ele foi e colocou Kaio Phelipe. Eu falei: “Porra, como assim?”. A gente estava numa festa. A gente saiu dessa festa, foi para um bar, bebeu uma cerveja. E ele me falou que era de Brasília e a gente fazia o mesmo curso na graduação. Eu falei: “Porra, então tem alguma coisa errada. Tem outro Kaio Phelipe no mundo com várias outras semelhanças”. E aí eu acho que o amor se tornou inevitável nesse momento assim também, sabe? É porque ele veio junto com uma curiosidade. E aí a gente foi desenvolvendo uma relação. Isso foi no dia oito de julho. Um amor canceriano, então. No dia seguinte a gente foi à praia. Depois da praia a gente foi ao cinema. Depois do cinema foi para um bar e ainda dormimos juntos. Foi óbvio, sabe? Acho que o amor foi óbvio para mim. E aí as surpresas foram outras, né? As surpresas vieram de forma mais calma. A comunicação foi boa. Isso foi um presente. Porque eu trabalho escrevendo, então eu gosto de pensar, e aí às vezes fica até difícil, sabe? E o Kaio também. A gente entra numa conversa e a gente vai indo assim. Eu acho que isso é uma qualidade que eu gosto muito nele. Eu sou um canceriano apaixonado. Então é isso, eu quero filho, quero casamento, sabe? É um sonho.