Capa do episódio de DG Machado

EPISÓDIO 01 · DG Machado

A Batalha do Amor e do Medo

Poeta, MC e cria do Rodo, em Santa Cruz. Entre o amor, o medo e a vontade de transformar seu território, DG encontra na palavra uma forma de construir outros caminhos.

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Trechos do episódio

ABERTURA + CINCO MOMENTOS

Os textos de apoio acompanham a escuta; passagens musicais e de ambientação são indicadas entre colchetes.

COMECE PELA ABERTURA

O sonho do diploma

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[Vinheta, música e ambientação.] Bom, dia 23 de setembro. Primeiro registro do Pode Sonhar. Sou DG. Ultimamente eu tenho tido um sonho que tem se repetido algumas vezes. Um amigo meu, Maicon Alexandre, ele chegando na favela. A gente indo em direção ao topo do morro, passando pela boca. E quando a gente olhava para a mão dele, ele chegava com um diploma. E a gente olhava lá para baixo, a gente via a mãe dele subindo o morro em nossa direção. Os meninos olhando, comemorando pelo fato de ser um preto favelado chegando com diploma e sendo um dos primeiros formados dentro da nossa favela. O Maicon Alexandre foi um dos principais amigos que eu tive porque, desde o início, ele sempre me incentivou a estar na faculdade, a ir para a faculdade. Infelizmente eu perdi esse meu amigo numa dessas operações que aconteceu, que ele tomou um tiro da Polícia Militar e... [Pausa e intervenção musical sobre o sonho do amigo chegando à favela com um diploma.]

TRECHO 02

Ser astronauta para levar a família para longe

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Quando a gente é criança, acaba tendo muitos sonhos que a gente às vezes pensa que é bobo. Desde novo, tinha três sonhos que sempre mexeram muito comigo. Primeiro, eu queria ser biólogo marinho porque eu sempre fui completamente apaixonado por tubarão. E eu achava que, sendo um tubarão, poderia ser forte e não deveria ter medo de mais ninguém. O tempo foi passando e eu comecei a querer ser astronauta. Quando começaram as invasões na favela de onde eu morava, o clima era insustentável e meu único pensamento era conseguir sair dali e, se possível, conseguir levar minha família para um planeta distante o suficiente para poder não precisar passar pelas coisas.

TRECHO 03

Um centro cultural na favela

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O meu sonho de vida é conseguir construir um centro cultural na favela onde eu nasci. A casa onde eu morei minha infância até meus cinco anos, no caso, que foi quando a gente saiu de lá por conta dos problemas com as invasões e tudo mais. E o Pode Sonhar, muito pelo contrário, não mudou, como aumentou ainda mais minha vontade para poder fazer isso. Eu moro em Santa Cruz, o último bairro da Zona Oeste, o último lugar do município do Rio de Janeiro. Então, para eu poder acessar qualquer tipo de oportunidade para a cultura, eu preciso me deslocar no mínimo trinta quilômetros, que é para poder ir até Madureira, que é um centro com um pouco mais de qualidade. Ou então, se eu quiser vir para o centro do Rio de Janeiro, são cinquenta quilômetros para poder conseguir consumir o mínimo de cultura.

TRECHO 04

Do microfone aberto ao campeonato de poesia

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Eu fui só para poder assistir. Quando eu estava assistindo, do nada chegou o pessoal falando sobre o mic aberto. Não tinha nem ideia do que isso ia dizer, o mic aberto, que era a oportunidade do pessoal que ia demonstrar o trabalho. E falou que tinha algumas pessoas inscritas já para o mic aberto. Sem eu saber, o Viajante colocou meu nome para eu poder participar do mic aberto. Então foi minha primeira apresentação dentro de um slam, mas não na forma competitiva. Depois, na forma competitiva, foi um slam que ele mesmo produzia, que acontecia lá em Santa Cruz. Eu consegui participar, fui campeão do slam e em dois meses de trabalho com slam eu consegui a vaga para o campeonato estadual de poesia, slam aqui no Rio de Janeiro.

TRECHO 05

Amor também é militância

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E dentro da cena eu tento construir justamente isso: um espaço onde a gente possa realmente falar de amor, sentir amor, se sentir abraçado. E às vezes até mesmo num dia difícil, sei lá, receber uma mensagem carinhosa sem precisar a outra pessoa achar que está fazendo aquilo por um certo interesse. Conseguir colocar na cabeça das pessoas que todo mundo que fala ou então demonstra amor está fazendo simplesmente por se importar com você. E dentro da poesia eu tento trazer isso tanto de uma forma reflexiva quanto de uma forma um pouco mais ativa. Na parte reflexiva, através das poesias que eu vou postando, que eu vou mostrando para outras pessoas e contando histórias de amor, que querendo ou não faz lembrar, né? Faz pensar que ainda existem algumas coisas positivas para a gente poder se lembrar. E da parte um pouco mais combativa é falando que amor também é militância.

TRECHO 06

A aprovação na UERJ e o abraço na mãe

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Aí todo mundo: “Parabéns, parabéns, parabéns”. Aí quando eu fui abrir o Instagram, vi a gente postando. Aí foi chororô. Aí já saí, comprei passagem direto para o Rio. Tem uma poesia que eu falo para minha mãe que, quando eu passasse para cá, para a UERJ, eu ia correr, abraçar e bagunçar o cabelo dela. E a primeira coisa que eu fiz, assim que eu cheguei em casa, com essa mochila, que eu cheguei de camping mesmo, joguei a mochila no chão, saí correndo, bagunçando, gritando para todo mundo ouvir. Um dos melhores dias da minha vida. Disparado, disparado.

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